Não te esqueças de que a solução para o problema que te angustia, está a caminho.

Nos tribunais da Divina Justiça, nenhum processo fica parado.

A tua petição, depois de examinada, será deferida de acordo com os teus méritos.

Não te aflijas, antecipando-te às providências que haverão de ser tomadas em favor de tua paz.

Nem agraves a tua situação, tornando inócuas, quando te alcancem, as deliberações em andamento.

Saber esperar é tão importante quanto saber agir.

Toda decisão precipitada acaba sendo uma solução pela metade para o problema que se pretende resolver.

A solução que demora a surgir ainda não encontrou, disponíveis, os elementos que a favoreçam.


Irmão José/Carlos A. Baccelli
livro "Vigiai e Orai"











Dez Maneiras de Amar a Nós Mesmos

1. Disciplinar os próprios impulsos.

2. Trabalhar, cada dia, produzindo o melhor que pudermos.

3. Atender aos bons conselhos que traçamos para os outros.

4. Aceitar, sem revolta, a crítica e a reprovação.

5. Esquecer as faltas alheias sem desculpar as nossas.

6. Evitar as conversações inúteis.

7. Receber no sofrimento o processo de nossa educação.

8. Calar diante da ofensa, retribuindo o mal com o bem.

9. Ajudar a todos, sem exigir qualquer pagamento de gratidão.

10. Repetir as lições edificantes, tantas vezes quantas se fizerem necessárias, perseverando no aperfeiçoamento de nós mesmos, sem desanimar e colocando-nos a serviço do Divino Mestre, hoje e sempre.







Que Deus não permita que eu perca o ROMANTISMO,
mesmo sabendo que as rosas não falam...

Que eu não perca o OTIMISMO, mesmo sabendo que o futuro
que nos espera pode não ser tão alegre...

Que eu não perca a VONTADE DE VIVER, mesmo sabendo que a vida é,em muitos momentos, dolorosa...


Que eu não perca a vontade de TER GRANDES AMIGOS,
mesmo sabendo que, com as voltas do mundo,
eles acabam indo embora de nossas vidas...

Que eu não perca a vontade de AJUDAR AS PESSOAS,
Mesmo sabendo que muitas delas são incapazes
de ver, reconhecer e retribuir, esta ajuda...

Que eu não perca o EQUILÍBRIO, mesmo sabendo
que inúmeras forças querem que eu caia...

Que eu não perca A VONTADE DE AMAR, mesmo sabendo que a pessoa que eu mais amo pode não sentir o mesmo sentimento por mim...

Que eu não perca a LUZ E O BRILHO NO OLHAR, mesmo sabendo que muitas coisas que verei no mundo escurecerão os meus olhos...

Que eu não perca a GARRA, mesmo sabendo que a derrota e a perda

São dois adversários extremamente perigosos...

Que eu não perca a RAZÃO, mesmo sabendo

que as tentações da vida são inúmeras e deliciosas...

Que eu não perca o sentimento de JUSTIÇA, mesmo
sabendo que o prejudicado possa ser eu...

Que eu não perca o meu FORTE ABRAÇO, mesmo sabendo
que um dia os meus braços estarão fracos...

Que eu não perca a BELEZA E A ALEGRIA DE VIVER, mesmo sabendo

que muitas lágrimas brotarão dos meus olhos e escorrerão por minha alma...

Que eu não perca o AMOR POR MINHA FAMÍLIA, mesmo sabendo que ela muitas vezes me exigiria esforços incríveis para manter a sua harmonia...


Que eu não perca a vontade de DOAR ESTE ENORME AMOR que existe em meu coração, mesmo sabendo que muitas vezes ele será submetido e até rejeitado...

Que eu não perca a vontade de SER GRANDE, mesmo
sabendo que o mundo é pequeno...

E acima de tudo...

Que eu jamais me esqueça que Deus me ama infinitamente!

Que um pequeno grão de alegria e esperança dentro de cada um é capaz de mudar e transformar qualquer coisa, pois...

A VIDA É CONSTRUÍDA NOS SONHOS

E CONCRETIZADA NO AMOR!






Desencanto

Também, Senhor, um dia, de alma ansiosa,
Num sonho todo amor, carícia e graça,
Quis encontrar a imagem cor-de-rosa
Da ventura que canta, sonha e passa.

E perquiri a estrada erma e escabrosa,
Perenemente sob a rude ameaça
Da amargura sem termos, angustiosa,
Entre os frios do pranto e da desgraça,

Até que um dia a dor, violentamente,
Fez nascer no meu cérebro demente
Os anelos de morte, cinza e nada.

E no inferno simbólico do Dante,
Vim reencontrar a lagrima triunfante,
Palpitando em minh’alma estraçalhada.


Autor: Hermes Fontes
(psicografia de Chico Xavier )

Estudos Doutrinários

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Evolução Espiritual de Longo Prazo




Evolução Espiritual de Longo Prazo

Na obra “Loucura e Obsessão” [1], o médico Manoel Philomeno de Miranda questiona o Dr. Bezerra de Menezes sobre o contexto que levou um menino, denominado Aderson, a sofrer com o autismo. Em dado momento, Miranda pergunta ao Mentor:

“— E ele se curará?”Tal questionamento chama a atenção acerca de o que consideramos cura. Sem uma noção mais ampla acerca do que seja a cura, podemos enfrentar a desencarnação de um ente querido e nos revoltar por tê-lo “perdido”, mesmo com nossas orações mais fervorosas.

Primeiramente, não “perdemos” ninguém, pois pessoa alguma é propriedade nossa. Consideremos, também, que a pessoa desencarnada não está perdida — está sempre ao alcance e amparo de seu Espírito protetor. Agora, analisemos a questão do termo “cura”.

No idioma latim, cura significa “cuidado”, “atenção”, “zelo”. A expressão latina medici cura, utilizada pelo enciclopedista Aulus Celsus [2] no século I d.C., é traduzida por “cuidado médico”, começando aí a associação de “cura” com “tratamento da saúde”. O teólogo Leonardo Boff orienta [3] que cura, cuja forma latina mais antiga se escrevia coera, “era usada num contexto de relações de amor e de amizade. Expressava a atitude de cuidado, de desvelo, de preocupação e de inquietação pela pessoa amada ou por um objeto de estimação”.

Atentando para o significado original de “cura”, pode-se concluir que “curar-se” significa “cuidar de si” — ou seja, darmos atenção à nossa essência. E qual a nossa essência: somos um corpo ou um Espírito temporariamente animando um corpo? Independente de sermos espiritualistas ou materialistas, todos somos Espíritos imortais, e não meros conjuntos de genes e tecidos que se agruparam “por acaso” e desaparecerão quando nosso corpo carnal não mais tiver vida.

Neste sentido, “curar-se” não é um cuidado que outros possam prestar a nós, mas sim uma atenção e evolução íntimas, de dentro para fora. Curar-se é, por meio de boas obras, orientadas ao Bem de nosso semelhante, fazermos as pazes com nossa consciência, local onde se encontram as Leis Divinas, conforme citado à questão 621 de “O Livro dos Espíritos” [4]. Cuidar bem de nós mesmos implica dar atenção à nossa evolução espiritual, em vez de um foco apenas material. É nos amarmos de fato, nos permitindo evoluir moral e intelectualmente. Sabendo nos amar e nos respeitar, aprendemos a amar e respeitar nossos semelhantes.

Uma só vida corporal, usualmente não muito mais do que 100 anos terrestres, não nos permite aprender tudo que há de lições morais e intelectuais na Terra. Como não há seres privilegiados na Criação, Deus nos oferta a bênção da pluralidade de existências corpóreas, uma série de “provas sem consulta”, ou com consulta limitada ao Plano Espiritual, para aferirmos a aquisição de conhecimentos morais e intelectuais cada vez mais elevados, aprendidos nas encarnações e nos períodos entre as mesmas.

Assim nos orientam os Espíritos da falange do Consolador, às questões 166, 166-a e 167:

166. Como pode a alma, que não alcançou a perfeição durante a vida corpórea, acabar de depurar-se?
“Sofrendo a prova de uma nova existência.”
a) — Como realiza essa nova existência? Será pela sua transformação como Espírito?
“Depurando-se, a alma indubitavelmente experimenta uma transformação, mas para isso necessária lhe é a prova da vida corporal.”

167. Qual o fim objetivado com a reencarnação?
“Expiação, melhoramento progressivo da Humanidade. Sem isto, onde a justiça?”
A vitória sobre um mau hábito; a aquisição de uma virtude; a reparação de um erro e todas conquistas espirituais podem não ser visualizadas em sua plenitude no breve tempo de uma existência corpórea. Isso não significa que a evolução não exista ou não esteja em progresso.



Um exemplo de processo de superação de uma ofensa recebida, ao longo de um de cinco reencarnações e quatro períodos na erraticidade (tempo entre reencarnações). Podemos superar dificuldades em muito menos etapas; só depende de nós.

Plantando em bom terreno e cuidando bem da semente, em algumas décadas, teremos uma árvore. Não veremos de imediato, na semente, a árvore: precisamos cuidar da semeadura e aguardar, com fé e perseverança. Semeando valores nobres em todas as provas de nossas vidas, em algumas décadas, ou talvez em alguns séculos ou milênios (tempo muito pequeno em comparação aos ciclos de vida do Universo), teremos atingido patamares de maturidade espiritual que, de imediato ou em alguns poucos anos, não teríamos condições de vislumbrar ou valorizar.

O próprio Universo se transforma e evolui ao longo de trilhões de anos, em ciclos de expansão e retraimento. Somos parte dessa Criação, e também somos fadados a nos transformar e evoluir ao longo de incontáveis ciclos de idas e vindas a planos de matéria densa e sutil. Como lemos em “O Livro dos Espíritos” (por exemplo, às questões 194, 365 e 781), jamais regredimos. O que parece um retrocesso é, antes, um ponto de melhoria antes desconhecido, ou que não tínhamos disposição e/ou maturidade para tratar.

Assim, sempre é tempo de recomeçar, aprender, evoluir. Instruídos à questão 195 de “O Livro dos Espíritos”, compreendemos ser um erro adiar para outro tempo o que nos caiba fazer agora. Mesmo assim, em qualquer época de nossas vidas, temos condições de, ao desejarmos algo aprender ou ao constatarmos um erro cometido, iniciar nosso plano de curto, médio e longo prazo para essa apreender essa lição.

Vejamos algumas lições do Espírito São Luís acerca do arrependimento, à questão 1007 de “O Livro dos Espíritos” e na obra “O Evangelho Segundo o Espiritismo”:

“Haverá Espíritos que nunca se arrependem?
‘Há os de arrependimento muito tardio; porém, pretender-se que nunca se melhorarão fora negar a lei do progresso e dizer que a criança não pode tornar-se homem.’” [4]

“Sei bem haver casos que se podem, com razão, considerar desesperadores; mas, se não há nenhuma esperança fundada de um regresso definitivo à vida e à saúde, existe a possibilidade, atestada por inúmeros exemplos, de o doente, no momento mesmo de exalar o último suspiro, reanimar-se e recobrar por alguns instantes as faculdades! Pois bem: essa hora de graça, que lhe é concedida, pode ser-lhe de grande importância. Desconheceis as reflexões que seu Espírito poderá fazer nas convulsões da agonia e quantos tormentos lhe pode poupar um relâmpago de arrependimento.” [5]
A constatação de um ponto a melhorar, e o consequente arrependimento por um proceder inadequado, são os primeiros passos para nossa evolução. Contudo, apenas o arrependimento, em si, não soluciona a questão. Por mais sincero seja o arrependimento, e por mais intensa a fé abraçada, se não houver obras, ou seja, ações objetivas em prol do Bem de nosso semelhante, motivadas pelo aprendizado na nova atitude, não consolidaremos nosso aprendizado e nosso amadurecimento. Lemos à questão 1002 de “O Livro dos Espíritos”:

“Que deve fazer aquele que, em artigo de morte, reconhece suas faltas, quando já não tem tempo de as reparar? Basta-lhe nesse caso arrepender-se?
‘O arrependimento lhe apressa a reabilitação, mas não o absolve. Diante dele não se desdobra o futuro, que jamais se lhe tranca?’”
O que a constatação de um erro, cometido por nós ou contra nós, não pode trazer, são as angustiantes e improdutivas emoções do remorso e da revolta. Essas são verdadeiras barreiras à nossa evolução, por impedirem, respectivamente, de perdoarmos a nós mesmos e ao nosso semelhante. Novamente, é uma questão de bem cuidar, ou seja, de curar a nós e o próximo.

Em dois trechos da brilhante obra “Evolução em Dois Mundos”, André Luiz ilustra o severo impacto negativo que o remorso traz ao nosso mundo íntimo:

“Obliterados os núcleos energéticos da alma, capazes de conduzi-la às sensações de euforia e elevação, entendimento e beleza, precipita-se a mente, pelo excesso da taxa de remorso nos fulcros da memória, na dor do arrependimento a que se encarcera por automatismo, conforme os princípios de responsabilidade a se lhe delinearem no ser, plasmando com os seus próprios pensamentos as telas temporárias, mas por vezes de longuíssima duração, em que contempla, incessantemente, por reflexão mecânica, o fruto amargo de suas próprias obras, até que esgote os resíduos das culpas esposadas ou receba caridosa intervenção dos agentes do amor divino, que, habitualmente, lhe oferecem o preparo adequado para a reencarnação necessária, pela qual retomará ao aprendizado prático das lições em que faliu.” [6]

“A recordação dessa ou daquela falta grave, mormente daquelas que jazem recalcadas no espírito, sem que o desabafo e a corrigenda funcionem por válvulas de alívio às chagas ocultas do arrependimento, cria na mente um estado anômalo que podemos classificar de ‘zona de remorso’, em torno da qual a onda viva e contínua do pensamento passa a enovelar-se em circuito fechado sobre si mesma, com reflexo permanente na parte do veículo fisiopsicossomático ligada à lembrança das pessoas e circunstâncias associadas ao erro de nossa autoria.
(...)
É assim que o remorso provoca distonias diversas em nossas forças recônditas, desarticulando as sinergias do corpo espiritual, criando predisposições mórbidas para essa ou aquela enfermidade, entendendo-se, ainda, que essas desarmonias são, algumas vezes, singularmente agravadas pelo assédio vindicativo dos seres a quem ferimos, quando imanizados a nós em processos de obsessão. Todavia, ainda mesmo quando sejamos perdoados pelas vítimas de nossa insânia, detemos conosco os resíduos mentais da culpa, qual depósito de lodo no fundo de calma piscina, e que, um dia, virão à tona de nossa existência, para a necessária expunção, à medida que se nos acentue o devotamento à higiene moral.” [7]
Preciosos relatos de autores espirituais nos informam sobre o lento e gradual processo de evolução, para aprendizado e reparação de erros, que se opera ao longo de diversos processos reencarnatórios. Além da obra “Evolução em Dois Mundos”, acima citada, relacionamos, a título de exemplos, as obras “Entre a Terra e o Céu” e “Memórias de um Suicida”.

A lentidão de tais processos de reforma íntima não se deve a nenhuma morosidade do Plano Espiritual, mas às nossas próprias limitações em estudar, apreender e aplicar novas lições, especialmente no campo da evolução moral. Dispomos de muitos bons exemplos de dedicação ao próximo para seguir e acelerar nossa melhoria. Allan Kardec, à questão 625 de “O Livro dos Espíritos”, pergunta qual o tipo mais perfeito que Deus tem oferecido ao homem, para lhe servir de guia e modelo, recebendo a resposta mais breve e, talvez, mais profunda da referida obra: Jesus. Não se trata de nenhum ato de fanatismo, mas de fé raciocinada. Exemplificando a caridade incondicional e o desapego à vida material, Jesus nos apresenta um roteiro lógico e exequível de amadurecimento espiritual. Relembrando o versículo 06 do Salmo 82 e indo além, Jesus nos orienta:

“Não está escrito na vossa Lei: Eu disse que vós sois deuses?” (João 10:34)

“Em verdade, em verdade vos digo que aquele que crê em mim, esse fará também as obras que eu faço, e fará ainda maiores (...)” (João 14:12)

Podemos, agora, compreender melhor por que Bezerra de Menezes respondeu à questão citada ao início desta postagem, no livro “Loucura e Obsessão”, nos seguintes termos:

“— Os desígnios de Deus — respondeu, reflexionando — são inescrutáveis. Caso não recupere todas as suas funções, para a atual existência, melhorará as condições para os próximos cometimentos. Deveremos examinar a Vida sob o ponto de vista global e não angular, de uma única experiência física, como a atual. Da mesma forma que vamos buscar as origens dos males de hoje no passado do Espírito, é justo que pensemos na sua felicidade em termos de amanhã, considerando o presente como sendo uma ponte entre os dois períodos e não a situação única a vivenciar. Destas atitudes resulta o porvir com todas as suas implicações. Assim, lancemos para amanhã os resultados do esforço de agora.” [1]

Focos de desequilíbrio espiritual



Focos de desequilíbrio espiritual

Nossa higiene corporal nos previne de doenças que danifiquem nosso corpo denso por décadas. Nossa atitude mental nos protege de contaminações que se demorem em nosso corpo perispiritual por milênios.

A Ciência terrestre reconhece, desde o século XIX, a necessidade de assepsiar ferimentos e instrumental cirúrgico, a fim de evitarem-se focos de doenças, invisíveis ao olho humano, mas de efeitos severos à saúde física. Esse importante avanço na prevenção de doenças se deve à teoria microbiológica da doença, fundamentada pelo cientista Louis Pasteur no século XIX, aliada ao invento do microscópio, datado do final do século XVI.

Ou seja, antes da invenção do microscópio, no ano de 1590, a existência de micro-organismos seria tachada de crendice infundada, mesmo que se percebessem os efeitos de infecções por bactérias há milhares de anos. Anteriormente às demonstrações, ocorridas na década de 1860, da relação entre micro-organismos e doenças, a Humanidade não levaria a sério avisos sobre o cuidado com a higiene e sobre os devastadores efeitos que formas de vida tão pequenas trazem ao corpo humano.

Também no século XIX, Allan Kardec, codificando a Doutrina Espírita, demonstra, por análise científica, os efeitos do plano espiritual sobre o de matéria densa, bem como a coerência de milhares de comunicações mediúnicas. No livro “O que é o Espiritismo”, recomendado pelo próprio Kardec para iniciarmos o estudo da Doutrina Espírita, o Codificador compartilha conosco as palavras de um médico, antes incrédulo e depois adepto da Doutrina dos Espíritos:


“Antes de inventar-se o microscópio, alguém suspeitava da existência desses milhares de animálculos, que causam tantos estragos à economia? Onde a impossibilidade material de haver no espaço seres que escapem aos nossos sentidos? Teremos, porventura, a ridícula pretensão de saber tudo, e de dizer que Deus nada mais nos pode revelar?” [1]
Um ferimento não tratado é foco de infecções no corpo. De forma análoga, pensamentos, palavras ou atitudes incompatíveis com o Bem de nosso semelhante são compartilhadas por inteligências com os mesmos propósitos desarmônicos, as quais se juntam a nós para colaborar nesses maus projetos. Independente de crença ou de possuir-se ou não mediunidade ostensiva, tais inteligências vivem tanto no plano de matéria densa como no plano de matéria quintessenciada.


Vejamos um exemplo, relatado em “O Livro dos Médiuns”, obra lançada em 15 de janeiro de 1861 e que completou 150 anos há poucos dias. Em pequena localidade, duas irmãs, as quais nunca haviam ouvido falar em Espiritismo, tinham suas roupas depredadas e espalhadas pela casa e até pelos telhados, ainda que tivessem sido guardadas à chave. Muito tempo após o início dessas ocorrências, elas tiveram a indicação de procurar Kardec. O Codificador recebeu, do Plano Espiritual, a seguinte mensagem a respeito dos eventos:


“O que essas senhoras têm de melhor a fazer é rogar aos Espíritos seus protetores que não as abandonem. Nenhum conselho melhor lhes posso dar do que o de dizer-lhes que desçam ao fundo de suas consciências, para praticarem o amor do próximo e a caridade. Não falo da caridade que consiste em dar e distribuir, mas da caridade da língua; pois, infelizmente, elas não sabem conter as suas e não demonstram, por atos de piedade, o desejo que têm de se livrarem daquele que as atormenta. Gostam muito de maldizer do próximo e o Espírito que as obsidia toma sua desforra, porquanto, em vida, foi para elas um burro de carga. Pesquisem na memória e logo descobrirão quem ele é.
Entretanto, se, conseguirem melhorar-se, seus anjos guardiães se aproximarão e a simples presença deles bastará para afastar o mau Espírito, que não se agarrou a uma delas em particular, senão porque o seu anjo guardião teve que se afastar, por efeito de atos repreensíveis, ou maus pensamentos. O que precisam é fazer preces fervorosas pelos que sofrem e, principalmente, praticar as virtudes impostas por Deus a cada um, de acordo com a sua condição.” [2]
Kardec, ponderando o teor da mensagem acima, entende ser dura demais para transmitir às irmãs da forma como fora recebida. Os Espíritos orientaram-no com a seguinte resposta:


“Devo dizer o que digo e como digo, porque as pessoas de quem se trata têm o hábito de supor que nenhum mal fazem com a língua, quando o fazem muitíssimo. Por isso, preciso é ferir-lhes o Espírito, de maneira que lhes sirva de advertência séria.” [2]
Das lições acima apresentadas pelo Plano Espiritual, podemos chegar às seguintes conclusões:

Uma enfermidade moral, no caso a maledicência, se tornou um “foco infeccioso” para a ação de um Espírito temporariamente focado na má vibração da vingança;
Se, ao perceber a adversidade, as irmãs tivessem mudado de atitude para ações em prol do Bem, igualmente permitiriam a companhia de Espíritos com esse foco. Ações, palavras e pensamentos voltados ao Bem do próximo vibram em frequência superior àqueles voltados aos interesses personalistas e materialistas. Devido a frequências superiores possuírem maior energia do que as frequências inferiores, a presença de Bons Espíritos impediria a ação da entidade vingativa;
Não adianta chamarmos “caça-fantasmas”, exorcistas ou executar quaisquer rituais externos. Seria análogo a afastarmos moscas e larvas de uma ferida, sem a desinfetarmos e medicarmos: a lesão só fará piorar. Repelimos más influências externas com efetividade quando modificamos internamente nossa atitude espiritual;
Jamais saiamos por aí acusando quem quer que seja de estar em qualquer sofrimento moral porque é uma pessoa má e está cheia de maus Espíritos à sua volta. Toda a mensagem do Evangelho se destina à busca de nossa reforma íntima, e não para sairmos à caça de imperfeições alheias. Lembremos o sábio conselho de Jesus em Lucas 06:37:
“Não julgueis, e não sereis julgados; não condeneis, e não sereis condenados; perdoai, e sereis perdoados.”
Ponderemos, como Kardec, o teor de qualquer conselho que pensemos levar a alguém, seja mediúnico ou anímico. Cuidado para não utilizarmos uma comunicação agressiva e devastadora, disfarçada de sinceridade. Ponderemos o prudente conselho de André Luiz:
“Se você acredita que franqueza rude pode ajudar a alguém, observe o que ocorre com a planta a que você atire água fervente.” [3]

Referências
[1] KARDEC, Allan. “O Que É o Espiritismo”. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 2009. Capítulo I, segundo diálogo — O cético.
[2] KARDEC, Allan. "O Livro dos Médiuns". 55ª ed. Rio de Janeiro: RJ, FEB: 1987. Segunda parte, capítulo XXIII, item 252.
[3] XAVIER, Francisco Cândido. “Respostas da Vida”. Pelo Espírito André Luiz. 30.ed. São Paulo, SP: Grupo de Ideal Espírita André Luiz, 2009. Capítulo 16.

A Influência de “Maus” Espíritos






A Influência de “Maus” Espíritos


“Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem.”(Carta de Paulo aos Romanos 12:21)
Para analisarmos se há meios de neutralizar a influência de “maus” Espíritos, devemos compreender a que se refere quando tachamos um Espírito de “mau”. De posse desse entendimento, podemos estabelecer as medidas de modificação interna para evitar más influências. Não busquemos fora de nós, em “culpados” externos, as causas e os remédios para nossos desafios. O caminho está em efetuar nossa evolução moral, seja para resolver o que podemos, seja para confiar em Deus e nos resignarmos ao que presentemente se encontre fora de nosso alcance.

Através das respostas a diversas questões de “O Livro dos Espíritos” [1], concluímos que ninguém inicia sua existência intrinsecamente bom ou mau (questão 115); que ninguém retrograda (questão 118); que ninguém é fadado ao mal — pelo contrário, todos os seres são destinados a evoluir, ao bem, mesmo que isso leve inúmeros séculos para se concretizar (questões 116 e 125), e que são os próprios Espíritos que se melhoram (questão 114). Possuímos um guia de procedimento no bem em nossa consciência (questão 621), a qual podemos, voluntária e temporariamente, “entorpecer”, mas que torna a nos aconselhar quando nos dispusermos a ouvi-la [2].

Lembramos que, em “O Livro dos Espíritos”, entre os itens 96 e 113, Allan Kardec apresenta uma escala didática das ordens de Espíritos, parametrizada pelas conquistas morais e intelectuais dos seres. Entendamos, porém, que se trata de uma referência didática, e não de um instrumento para rotular pessoa alguma. Não cometamos o erro de “pendurar um cartaz no pescoço” de qualquer ser, tachando-o de “Espírito leviano” (item 103 da obra citada) porque, em nosso entender, apresentou uma atitude irrefletida; ou rotulando-o como “Espírito de sabedoria” (item 110 do mesmo livro) ao ver nele uma boa ação. Todos nós somos Espíritos em processo de aperfeiçoamento; estamos sujeitos a alternar atitudes bondosas e elevadas com atitudes menos felizes, e não gostaríamos de ser rotulados de “maus” Espíritos por momentos pontuais infelizes de nossa história. Espíritos sábios não precisam de elogios; e os que nos pareçam ainda não comprometidos com o bem (não dispomos de elementos suficientes para julgar ninguém), não precisam de um rótulo, precisam de orientação, paciência e preces para ouvirem as boas inspirações que sempre recebem, como todo filho de Deus que todos somos.


Portanto, há Espíritos que temporariamente escolheram abster-se de praticar o bem; não há “senhores das trevas”, destinados ao mal desde sua criação e destinados ao mal eterno. O que pode haver são oponentes, Espíritos com os quais, ao longo de nossas vidas, criaram-se animosidades, as quais cumpre a nós fazer nossa parte para sanar, pelo exemplo na prática do bem, não somente e diretamente a esses oponentes, mas a todos que estiverem ao nosso alcance. É da palavra semítica šṭn, significando adversário ou acusador, que advêm os termos shatán, do hebraico, traduzido como aquele que acusa, inclusive em termos jurídicos, num tribunal; shaytán, do árabe, o qual tem os significados de adversário ou acusador, bem como de serpente; e diábolos, do grego, procedente do verbo dia-ballö, possuindo um significado semelhante de oposição ou confronto.

Esse entendimento é importante para não encararmos uma influência negativa como um inimigo, mas como uma emanação de um Espírito necessitado de esclarecimento e de aceitar oportunidades de evolução moral. Influenciamos e somos influenciados, o tempo todo, pelos pensamentos, palavras e ações nossos e alheios. Neste sentido é que todos somos médiuns.

Allan Kardec propôs à questão 469 de “O Livro dos Espíritos”, por que meios podemos neutralizar a influência dos maus Espíritos, respondida pelos Espíritos da Falange do Consolador prometido por Jesus com as seguintes palavras: “Praticando o bem e pondo em Deus toda a vossa confiança, repelireis a influência dos Espíritos inferiores e aniquilareis o império que desejem ter sobre vós. Guardai-vos de atender às sugestões dos Espíritos que vos suscitam maus pensamentos, que sopram a discórdia entre vós outros e que vos insuflam as paixões más. Desconfiai especialmente dos que vos exaltam o orgulho, pois que esses vos assaltam pelo lado fraco. Essa a razão por que Jesus, na oração dominical, vos ensinou a dizer: ‘Senhor! não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal.’”

Jamais ficamos desamparados pelos Espíritos que trabalham pelo nosso bem. Pela manutenção de um foco elevado em nossos pensamentos, especialmente pela prece, sempre recebemos seu auxílio. A esse respeito, Kardec pondera [3]: “Se os Espíritos inspiram de maneira oculta, é para deixar ao homem o livre-arbítrio e a responsabilidade de seus atos. Se receber inspiração de um Espírito mau, pode estar certo de receber, ao mesmo tempo, a de um bom, pois Deus jamais deixa o homem sem defesa contra as más sugestões. Cabe a ele pesar e decidir conforme a sua consciência.”

Assim, o recurso que temos à nossa disposição para neutralizar essa influência é a prática da caridade, em todas as suas facetas, seja material, seja moral; manter os pensamentos voltados para o bem em qualquer situação; e por fim, confiando em Deus, que nos protege de tantas outras influências e acontecimentos dos quais nem temos a menor noção.

Mais uma vez, o autoconhecimento, exposto à questão 919 de “O Livro dos Espíritos”, é necessário. Expliquemos: os Espíritos inferiores, em nos influenciando, desejam estimular as imperfeições que ainda possuímos. Se temos conhecimento de nossas imperfeições e estamos empenhados em combatê-las, será mais difícil sucumbirmos a essas influenciações.
Referências:

[1] KARDEC, Allan. “O Livro dos Espíritos”. 66ª ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1987. Questões 96 a 112, 114 a 116, 118, 125, 469, 621 e 919.
[2] KARDEC, Allan. “O Evangelho Segundo o Espiritismo”. 97ª ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1987. Capítulo XIII, item 10.
[3] KARDEC, Allan. “Revista Espírita de março de 1864”. São Paulo, SP: IDE, 1993. “Uma Rainha Médium”.

O Céu e o inferno




O Céu e o inferno


“O Reino de Deus não vem com aparência visível. Nem dirão: Ei-lo aqui! ou: Ei-lo ali! porque o reino de Deus está dentro de vós.” (Lucas 17:20-21)

Céu
Allan Kardec, em sua obra “O Céu e o Inferno” [1], explica que o termo céu vem do grego coilos, passando para o latim cœlum, ambas as palavras significando “côncavo”. Na Antiguidade, cria-se que o Universo girava em esferas com a Terra em seu centro, sendo cada esfera vista de nosso Planeta como um côncavo. Nosso entendimento sobre a posição da Terra frente ao Universo muito já se modificou; amadureçamos, também, nossa visão de mundo sobre o que sejam céu e inferno.

Paraíso
A metáfora de o céu ser um local do Universo destinado aos escolhidos por Deus tem frequente associação ao termo paraíso. Em sua origem, porém, tanto o termo céu como paraíso não significavam isso. O pesquisador Carlos Torres Pastorino [2] pondera, a respeito da palavra paraíso:
“A palavra PARAÍSO, transcrição do persa pairi-daêza, é encontrada várias vezes no Antigo Testamento, com o sentido de ‘jardim plantado’, de ‘bosque’ ou ‘pomar’ amenos, mas sempre no solo da Terra, e não flutuando entre as nuvens. (...) Em outros passos no Antigo Testamento encontramos o termo parádeisos como local físico de deleite ameno: (...) “Os teus renovos são um pomar [parádeisos] de romãs, com frutos preciosos (...)” (Cânticos 04:13)
Percebemos, nessa passagem de Cânticos, a associação entre os frutos do trabalho de uma pessoa (seus renovos) e uma ambiência harmônica à sua volta, a começar em seu mundo interior.

Felicidade
“Estar no Céu” é, portanto, um estado de harmonia espiritual, sempre condicionado ao Bem que praticarmos, independente de nossa localização. Essa é a aplicação prática do ensino constante do Salmo 62 e depois corroborado por Jesus:
“A cada um segundo as suas obras.” (Salmos 62:12; Mateus 16:27)
A respeito da relação entre felicidade, prática constante do Bem e evolução, Kardec pondera:
“A felicidade está na razão direta do progresso realizado (...). Sendo a felicidade dos Espíritos inerente às suas qualidades, haurem-na eles em toda parte em que se encontram, seja à superfície da Terra, no meio dos encarnados, ou no Espaço. (...) A felicidade dos Espíritos bem-aventurados não consiste na ociosidade contemplativa (...). A vida espiritual em todos os seus graus é, ao contrário, uma constante atividade, mas atividade isenta de fadigas.” [3]

Onde está o Céu?
O Codificador da Doutrina Espírita conclui a respeito dessa questão:
“Em toda parte. Nenhum contorno lhe traça limites. Os mundos adiantados são as últimas estações do seu caminho, que as virtudes franqueiam e os vícios interditam. (...) Comparados à Terra, esses mundos são verdadeiros paraísos (...). Sendo a Terra um mundo inferior destinado à purificação dos Espíritos imperfeitos, está nisso a razão do mal que aí predomina, até que praza a Deus fazer dela morada de Espíritos mais adiantados.” [4]
À medida que evoluímos moral e intelectualmente, trabalhamos para conquistar o acesso a mundos mais adiantados, nos quais novas e superiores lições nos aguardam. Não obstante, o Céu é um estado de harmonia íntima: onde quer que estejamos, com nossa consciência tranquila pela prática de todo o Bem ao nosso semelhante que estiver ao nosso alcance, bem como buscando a sintonia com a Espiritualidade Superior pela prece, sempre estaremos num paraíso, ou seja, nosso ambiente espiritual estará tranquilo como um jardim ameno.
A respeito dos diferentes graus evolutivos de mundos, aconselhamos a leitura de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, no seu capítulo III (“Há muitas moradas na casa de meu Pai”), itens 03 a 05 (“Diferentes categorias de mundos habitados”). [5]

O “mundo inferior”
A expressão acima vem do latim infernum, também significando “profundezas”. A elevação de pensamento proporcionada pelo Bem se inicia no Espírito. De forma análoga, o rebaixamento vibratório pela ausência da prática do Bem é um estado de desarmonia no mundo interior, refletindo, também, no ambiente em que a pessoa se localiza, por afinidade com outros Espíritos em condição similar de pensamento, palavras e atos.

Causa e efeito
Na Antiguidade, não havia uma noção clara sobre a existência de um mundo espiritual; só se entendia o que fosse do mundo físico, e, assim, também físicas deveriam ser as consequências de quaisquer atos nossos. Na análise de Allan Kardec, lemos:
“Desde todas as épocas o homem acreditou, por intuição, que a vida futura seria feliz ou infeliz, conforme o bem ou o mal praticado neste mundo. (...) o homem primitivo naturalmente moldou o seu futuro pelo presente (...). Não estando ainda desenvolvido o sentido que mais tarde o levaria a compreender o mundo espiritual, não podia conceber senão penas materiais; e assim, com pequenas diferenças de forma, os infernos de todas as religiões se assemelham.” [6]
Nossa visão de mundo evoluiu; já nos é possível compreender a transcendência da vida. Tratemos, então, de também evoluir nossa visão de mundo acerca da lei de causa e efeito. Eliminando a causa de dores morais, ou seja, buscando constantemente a prática da Lei Divina e nos mantendo em paz com a consciência, local onde encontra-se inscrita a Lei de Deus (“O Livro dos Espíritos”, questão 621), eliminam-se, também, as causas de quaisquer sofrimentos, incluindo as dores físicas, as quais cessarão quando não mais precisarmos desses alertas para nossa retificação moral.

Inferno e medo
A figura de um local do Universo destinado a abrigar os que “ofenderam a Deus”, bem como a existência de um ou mais seres com poder para se opor a Deus e “roubar-lhe” almas, são ideias contrárias à do Criador infinitamente justo, inteligente e bom. Toda a Sua criação, tanto o espaço como os Espíritos, estão em constante evolução. Apesar disso, essas imagens têm sido, há muito tempo, utilizadas também como instrumentos para incutir medo e obter controle sobre as pessoas. Isso não é eficaz, não é caridoso e é desnecessário; não necessitamos de instrumentos de opressão para nos impelir à evolução. Esse tipo de recurso tem relação com a Humanidade primitiva, como analisa Kardec:

“(...) o homem é comumente mais sensível ao mal que ao bem; este lhe parece natural, ao passo que aquele mais o afeta. Nem por outra razão se explica, nos cultos primitivos, as cerimônias sempre mais numerosas em honra ao poder maléfico: o temor suplanta o reconhecimento.” [7]Eis um desafio importante à nossa Humanidade atual, vivendo em um planeta em transição para mundo de Espíritos regenerados. Em vez de buscarmos o Bem, ainda precisamos temer o mal para contermos e eliminarmos nossas más tendências? Está na hora de o reconhecimento e busca pela prática do Bem ser-nos muito mais relevante do que o temor do mal.
O uso de figuras diabólicas como instrumento de controle pelo medo é ilustrado por André Luiz, no livro “Ação e Reação” [8], relatando a situação de uma mulher atormentada com a figura de um “demônio”, divulgada em livro do século XIX com a concordância de autoridades religiosas. Além de ser uma publicação não caridosa, esses tipos de imagem são utilizados por Espíritos temporariamente focados no mal, os quais podem modificar seu perispírito, seu corpo de matéria sutil, modelável pelo pensamento, e assumir essas formas assustadoras, implicando sofrimentos como o relatado nessa obra.
Devemos, também, ponderar que a ameaça do inferno não é eficaz para todos os encarnados. Esse recurso é especialmente inútil para os materialistas e para os mais intensamente ligados ao mal. Podemos concluir isso através do depoimento, trazido por via mediúnica, de Jacques Latour, um criminoso condenado à morte, a qual não temia por crer que, quando morresse, tudo acabaria, inclusive qualquer cobrança por seus erros — o que se verificou totalmente diferente de suas expectativas, pois a vida continua. Nas palavras de Jacques Latour:

“(...) Ora; um grande malfeitor não é um Espírito pusilânime, e o temor de um polícia é para ele mais real que a descrição dos tormentos do inferno. (...) Como insinuar (...) que uma alma, isto é, uma coisa imaterial, possa sofrer ao contato do fogo material? (...) por isso tantos e tantos criminosos se riem desses painéis fantásticos do inferno. O mesmo, porém, não se dá quanto à dor moral do condenado, após a morte física. Orai para que o desespero não se aposse de mim.” [9]
Do medo para a caridade
A Doutrina Espírita é o Consolador prometido por Jesus. Consolar é a união de dois termos do latim: cum + solis, ou seja, com + sol. O Sol é nossa referência de energia vital e calor; daí a expressão consolar ter o significado de levar iluminação e vitalidade às almas.
Cuidemos para nós, espíritas, não fazermos a mesma abordagem de medo das crenças primitivas, detalhando quadros terríveis de locais como o “vale dos suicidas” ou de obsessores implacáveis! Cada pessoa é uma história em particular; não há “tabela” no planejamento das vidas dos Espíritos, determinando que tais atos implicarão tanto tempo em determinado lugar; isso é abordagem coerente com as crenças primitivas do inferno, nas quais todos pagam da mesma forma, seja por que erro e em que contexto tenha ocorrido. Não mais necessitamos orientar pelo medo do mal, mas sim compartilhando o pouco que sabemos sobre a infinita evolução no Bem que aguarda a todos.

Sofrimentos “eternos”
Uma ideia comumente associada ao mito primitivo de inferno é o dos sofrimentos sem fim; a imagem de queimar “para sempre” num fogo que nunca apaga. Analisemos as palavras de Jesus:

“Se a tua mão te servir de pedra de tropeço [skándalon], corta-a; melhor é entrares na vida aleijado do que, tendo as duas mãos, ires para ageena, para o fogo inextinguível.” (Marcos 09:43)Essa passagem evangélica traz importantes lições sobre a vida ser um processo, o qual demanda evolução constante, e não um projeto com início em nossa concepção, seguido de algumas décadas de existência e findo com a morte do corpo físico. O estado atual de nossa existência decorre do que fizemos com nossos recursos anteriormente. Se fizemos mau uso de um dos tantos presentes de Deus, não só recursos físicos como a mão, mas recursos espirituais como a inteligência, e se optamos por não aprender pelo amor, ou seja, pela prática do Bem, aprenderemos pela dor, ou seja, privados de algum recurso por algum tempo, para meditarmos sobre a falta que ele nos fez e buscarmos conquistar novamente o direito de dispor do mesmo.
A respeito da questão de penas “eternas”, como o “fogo inextinguível”, sugerimos a leitura da postagem “Penas ‘Eternas’”, neste Blog, contendo diversas citações da Codificação Espírita relativamente a esse tema. Por ora, atenhamo-nos à questão do fogo, a geena citada por Jesus.
O termo geena deriva da expressão hebraica Geh Ben Hinnóm, ou “Vale dos filhos de Hinom”, citada, por exemplo, no segundo livro de Reis. Trata-se de um vale, localizado junto à cidade de Jerusalém. Antes de os hebreus lá residirem, este vale era utilizado para rituais ao deus pagão Moloch, os quais consistiam em sacrifícios humanos utilizando fogo. O povo judeu utilizou este vale para incinerar o lixo da cidade de Jerusalém, bem como para queimar os corpos de indigentes e condenados à morte. Esse vale foi, portanto, um lugar por muito tempo associado ao fogo e a queimar criminosos. Por isso Jesus referiu a geena como um lugar de sofrimento. Vemos, à figura abaixo, como é a geena atualmente. Se a geena evoluiu, também nós evoluamos nossa visão sobre ela, bem como nosso entendimento de mundo.



Uma vez que eterno significa, em seu sentido original, algo de duração desconhecida ou entendida como muito grande, nós é que determinamos o tempo em que permaneceremos em algum sofrimento: quando abrirmos mão do orgulho e do egoísmo, dando lugar à humildade e ao altruísmo, nossas dores morais se abrandarão, com reflexos positivos em todos os aspectos de nossas vidas.
Não nos percamos em questões semânticas. Um dos princípios da Doutrina Espírita é o de que Deus é eterno, e, para Ele, utilizamos o sentido mais recente da palavra; ou seja, Deus não teve início nem terá fim. De forma coerente com o outro princípio doutrinário, qual seja, o de Deus ser a suprema justiça, inteligência e bondade, é lógico, para a questão de penas e sofrimentos, utilizarmos o sentido original de eterno, qual seja, o de uma duração desconhecida. Lembremos de trecho da resposta à questão 28 de “O Livro dos Espíritos”:

“Compete-vos a vós formular a vossa linguagem de maneira a vos entenderdes. As vossas controvérsias provêm, quase sempre, de não vos entenderdes acerca dos termos que empregais, por ser incompleta a vossa linguagem para exprimir o que não vos fere os sentidos.”
Agrupamentos por afinidades
Céu e inferno são, antes de tudo, estados de Espírito. Mesmo assim, há locais onde se agrupam Espíritos de acordo com suas afinidades. Há, portanto, cidades e mundos onde vivem Espíritos harmonizados, bem como locais onde temporariamente se agregam seres em sofrimento moral e físico. Isso não implica que esses últimos locais servirão “para sempre” como “infernos” ou “purgatórios”; tudo evolui; o mal é temporário e o Bem é definitivo.
Analisemos um diálogo entre Clarêncio e André Luiz [11] a esse respeito:

“– Orgulho, vaidade, tirania, egoísmo, preguiça e crueldade são vícios da mente, gerando perturbações e doenças em seus instrumentos de expressão.
– É por isso que temos os vales purgatoriais, depois do túmulo... a morte não é redenção...
– Nunca foi (...). O pássaro doente não se retira da condição de enfermo, tão só porque se lhe arrebente a gaiola. O inferno é uma criação de almas desequilibradas que se ajuntam, assim como o charco é uma coleção de núcleos lodacentos, que se congregam uns aos outros.”
Purgatório
André Luiz, em sua reflexão, cita os “vales purgatoriais”. Como a Doutrina Espírita analisa a figura do purgatório? Estudemos as palavras de Kardec:

“Em cada existência, uma ocasião se depara à alma para dar um passo avante; de sua vontade depende a maior ou menor extensão desse passo: franquear muitos degraus ou ficar no mesmo ponto. (...) É, pois, nas sucessivas encarnações que a alma se despoja das suas imperfeições, que se purga, em uma palavra, até que esteja bastante pura para deixar os mundos de expiação como a Terra, onde os homens expiam o passado e o presente, em proveito do futuro.” [12]
Preparo na Luz para superar as sombras
Ninguém jamais está desamparado. Mesmo os Espíritos em situação moral mais degradada continuam a ser filhos do mesmo Deus, amados por Ele, o qual criou a todos fadados à evolução no caminho da perfeição. Sendo assim, mesmo nos lugares onde temporariamente convivem os sentimentos e pensamentos mais deprimentes, há Espíritos focados no Bem, auxiliando a todos que se cansem do mal, pois o mal se consome por si mesmo.
Nos locais onde as sombras são mais densas, mais preparados na Luz são os Espíritos que atuam em missões de consolação e amparo. Na obra “No Mundo Maior”, André Luiz exprime sua vontade de acessar abismos purgatoriais para relatar o que observaria em seus livros. A diretora dos trabalhos, Cipriana, orienta:

“(...) a sugestão (...) é valiosa, em se tratando de observações preliminares no Baixo Umbral. Como responsável, porém, pelos serviços diretos da expedição, não posso admiti-lo, por enquanto, em todas as particularidades. (...) Nosso estimado André não tem o curso de assistência aos sofredores nas sombras espessas.” [13]Onde houver dores morais mais intensas, tanto mais preparados no Bem são os Espíritos atuando na assistência àqueles irmãos em Deus. Podemos fazer uma analogia com um centro médico de alta complexidade, no qual enfermidades graves são objeto de atenção de equipes altamente preparadas.
Preparemo-nos, também nós, na prática do Bem, buscando orientação para bem praticá-lo através da prece, visando a auxiliar a nós mesmos e ao nosso semelhante, erigindo o Céu em nós, em nosso ambiente e em nosso mundo.



Referências:
[1] KARDEC, Allan. “O Céu e o Inferno”. 37.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1991. Primeira parte, capítulo III (“O céu”), item 01.
[2] PASTORINO, Carlos Torres. “Sabedoria do Evangelho”. Rio de Janeiro, RJ: Sabedoria, 1964. Volume 8, capítulo “Zombarias”.
[3] KARDEC, Allan. “O Céu e o Inferno”. 37.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1991. Primeira parte, capítulo III (“O céu”), itens 06 e 12.
[4] Ibidem. Itens 11 e 18.
[5] KARDEC, Allan. “O Evangelho Segundo o Espiritismo”. 97.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1987. Capítulo III (“Há muitas moradas na casa de meu Pai”), itens 03 a 05 (“Diferentes categorias de mundos habitados”).
[6] KARDEC, Allan. “O Céu e o Inferno”. 37.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1991. Primeira parte, capítulo IV (“O inferno”), itens 01 e 02;
[7] Ibidem. Capítulo IX (“Os demônios”), item 3;
[8] XAVIER, Francisco Cândido. “Ação e Reação”. Pelo Espírito André Luiz. 28.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 2007. Capítulo 04.
[9] KARDEC, Allan. “O Céu e o Inferno”. 37.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1991. Segunda parte, capítulo VI (“Criminosos arrependidos”), depoimentos de Jacques Latour, itens I e III.
[10] Wikipédia. Palavra Geena. Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Geena. Acesso em 06/out/2011.
[11] XAVIER, Francisco Cândido. “Entre a Terra e o Céu”. Pelo Espírito André Luiz. 17.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1997. Capítulo XXI.
[12] KARDEC, Allan. “O Céu e o Inferno”. 37.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1991. Primeira parte, capítulo V (“O purgatório”), item 4.
[13] XAVIER, Francisco Cândido. “No Mundo Maior”. Pelo Espírito André Luiz. 20ª ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1995. Capítulo 17.

O Bem e o Mal





O Bem e o Mal

Muitas questões acerca do bem e do mal podem surgir em nossos pensamentos. Vejamos como algumas dessas questões, formuladas em linguagem coloquial, são explanadas pela Doutrina Espírita.

Sugerimos, contudo, a leitura dos textos completos em “O Livro dos Espíritos” e demais obras a seguir citadas, pois não apenas as respostas, mas também as próprias perguntas de Allan Kardec aos Espíritos devem ser estudadas com atenção. A fim de obtermos os esclarecimentos que procuramos, devemos planejar e estudar as questões que formulamos.


O que é o mal?“Pode dizer-se que o mal é a ausência do bem, como o frio é a ausência do calor. Assim como o frio não é um fluido especial, também o mal não é atributo distinto; um é o negativo do outro. Onde não existe o bem, forçosamente existe o mal. (...)” [1]


Foto: Hendrio Belfort
Deus criou o mal?“Deus não criou o mal; Ele estabeleceu leis, e estas são sempre boas, porque Ele é soberanamente bom; aquele que as observasse fielmente, seria perfeitamente feliz; porém, os Espíritos, tendo seu livre-arbítrio, nem sempre as observam, e é dessa infração que provém o mal.” [2]

“Sendo Deus o princípio de todas as coisas e sendo todo sabedoria, todo bondade, todo justiça, tudo o que dele procede há de participar dos seus atributos, porquanto o que é infinitamente sábio, justo e bom nada pode produzir que seja ininteligente, mau e injusto. O mal que observamos não pode ter nele a sua origem.” [3]


Quais são as causas e origens do mal que aflige a Humanidade na Terra?“A imperfeição dos Espíritos que aqui se encarnam, é a origem do mal na Terra (...). O nosso mundo pode ser considerado, ao mesmo tempo, como escola de Espíritos pouco adiantados e cárcere de Espíritos criminosos. Os males da nossa humanidade são a consequência da inferioridade moral da maioria dos Espíritos que a formam. Pelo contacto de seus vícios, eles se infelicitam reciprocamente e punem-se uns aos outros.” [4]


Mas, se Deus não criou o homem perfeito, não terá criado, ao menos, a causa do mal?“Se fora criado perfeito, o homem fatalmente penderia para o bem. Ora, em virtude do seu livre-arbítrio, ele não pende fatalmente nem para o bem, nem para o mal. Quis Deus que ele ficasse sujeito à lei do progresso e que o progresso resulte do seu trabalho, a fim de que lhe pertença o fruto deste, da mesma maneira que lhe cabe a responsabilidade do mal que por sua vontade pratique. (...)” [5]


Deus não poderia ter criado a Humanidade mais avançada moralmente?“Já te dissemos: os Espíritos foram criados simples e Ignorantes. (...) Deus deixa que o homem escolha o caminho. Tanto pior para ele, se toma o caminho mau: mais longa será sua peregrinação. (...) É preciso que o Espírito ganhe experiência; é preciso, portanto, que conheça o bem e o mal. Eis por que se une ao corpo.” [6]


Então somos destinados ao mal em algumas existências?“Ninguém nasce destinado ao mal, porque semelhante disposição derrogaria os fundamentos do Bem Eterno sobre os quais se levanta a Obra de Deus. (...) Desse modo, ninguém recebe do Plano Superior a determinação de ser relapso ou vicioso, madraço ou delinquente, com passagem justificada no latrocínio ou na dipsomania, no meretrício ou na ociosidade, no homicídio ou no suicídio. Padecemos, sim, nesse ou naquele setor da vida, durante a recapitulação de nossas próprias experiências, o impulso de enveredar por esse ou aquele caminho menos digno, mas isso constitui a influência de nosso passado em nós, instilando-nos a tentação, originariamente toda nossa, de tornar a ser o que já fomos, em contraposição ao que devemos ser.” [7]

“É preciso fazermos uma distinção entre a alma e o homem. A alma é criada simples e ignorante, isto é, nem boa nem má, porém suscetível, em razão do seu livre-arbítrio, de seguir o bom ou o mau caminho, ou, por outra, de observar ou infringir as leis de Deus. O homem nasce bom ou mau, segundo seja ele a encarnação de um Espírito adiantado ou atrasado.” [8]


De onde vem a doutrina da luta entre forças do bem e do mal?“(...) Durante muito tempo o homem não compreendeu senão o bem e o mal físicos; os sentimentos morais só mais tarde marcaram o progresso da inteligência humana, fazendo-lhe entrever na espiritualidade um poder extra-humano fora do mundo visível e das coisas materiais. Esta obra foi, seguramente, realizada por inteligências de escol, mas que não puderam exceder certos limites.
Provada e patente a luta entre o bem e o mal, triunfante este muitas vezes sobre aquele, e não se podendo racionalmente admitir que o mal derivasse de um benéfico poder, concluiu-se pela existência de dois poderes rivais no governo do mundo. Daí nasceu a doutrina dos dois princípios, aliás lógica numa época em que o homem se encontrava incapaz de, raciocinando, penetrar a essência do Ser Supremo. (...)
Para compreender como do mal pode resultar o bem, é preciso considerar não uma, porém, muitas existências; é necessário apreender o conjunto do qual — e só do qual — resultam nítidas as causas e respectivos efeitos.” [9]


Não podemos cometer um mal, pensando estar fazendo o bem?“Jesus disse: vede o que queríeis que vos fizessem ou não vos fizessem. Tudo se resume nisso. Não vos enganareis.” [10]



Temos um guia a seguir para nos indicar estarmos fazendo o mal?“Quando comeis em excesso, verificais que isso vos faz mal. Pois bem, é Deus quem vos dá a medida daquilo de que necessitais. (...) Se atendesse sempre à voz que lhe diz — basta, evitaria a maior parte dos males, cuja culpa lança à Natureza.” [11]


Bem e mal são absolutos para todos?“(...) O bem é sempre o bem e o mal sempre o mal, qualquer que seja a posição do homem. Diferença só há quanto ao grau da responsabilidade.” [12]


Como se afigura essa graduação de responsabilidade do mal?“(...) a sua responsabilidade é proporcionada aos meios de que ele dispõe para compreender o bem e o mal. Assim, mais culpado é, aos olhos de Deus, o homem instruído que pratica uma simples injustiça, do que o selvagem ignorante que se entrega aos seus instintos.” [13]


Mas não pode haver algo que pareça um mal, e que depois vê-se ter sido um bem (do dito popular “há males que vêm para bem”)?“(...) O homem, cujas faculdades são restritas, não pode penetrar, nem abarcar o conjunto dos desígnios do Criador; aprecia as coisas do ponto de vista da sua personalidade, dos interesses factícios e convencionais que criou para si mesmo e que não se compreendem na ordem da Natureza. Por isso é que, muitas vezes, se lhe afigura mau e injusto aquilo que consideraria justo e admirável, se lhe conhecesse a causa, o objetivo, o resultado definitivo. Pesquisando a razão de ser e a utilidade de cada coisa, verificará que tudo traz o sinete da sabedoria infinita e se dobrará a essa sabedoria, mesmo com relação ao que lhe não seja compreensível.” [14]


Como fica a situação de quem faz um mal pelas circunstâncias que outras pessoas o impuseram?“O mal recai sobre quem lhe foi o causador. Nessas condições, aquele que é levado a praticar o mal pela posição em que seus semelhantes o colocam tem menos culpa do que os que, assim procedendo, o ocasionaram. Porque, cada um será punido, não só pelo mal que haja feito, mas também pelo mal a que tenha dado lugar.” [15]


Se eu não fiz um mal, mas tive proveito dele, tenho responsabilidade pelo mesmo?“É como se o houvera praticado. Aproveitar do mal é participar dele. (...) Há virtude em resistir-se voluntariamente ao mal que se deseja praticar, sobretudo quando há possibilidade de satisfazer-se a esse desejo. Se apenas não o pratica por falta de ocasião, é culpado quem o deseja.” [16]


Somente não fazer o mal é o que Deus espera de nós?“Não; cumpre-lhe fazer o bem no limite de suas forças, porquanto responderá por todo mal que haja resultado de não haver praticado o bem.” [17]

“(...) não fazer o bem já é um mal.” [18]

“Figurando o mal pelo negativo (-1) e o bem pelo positivo (+1), e o perdão pelo 0 (zero), temos as seguintes equações:

(-1) + (-1) = -2 - mal feito mais mal retribuído = mal duplo
(-1) + 0 = -1 - mal feito mais perdão = 1 mal
(-1) + (+1) = 0 - mal feito mais benefício prestado = mal anulado.Então, matematicamente se prova que só o bem praticado em favor de quem nos faça o mal é que consegue extirpar a dor e o sofrimento da face da Terra.” [19]


A fixação no mal tem um mecanismo para acabar, ou o mal se autoalimenta indefinidamente?“(...) Deus, todo bondade, pôs o remédio ao lado do mal, isto é, faz que do próprio mal saia o remédio. Um momento chega em que o excesso do mal moral se torna intolerável e impõe ao homem a necessidade de mudar de vida. Instruído pela experiência, ele se sente compelido a procurar no bem o remédio, sempre por efeito do seu livre-arbítrio. (...)” [20]


Há maior ou menor mérito no bem que se faça?“O mérito do bem está na dificuldade em praticá-lo. Nenhum merecimento há em fazê-lo sem esforço e quando nada custe. Em melhor conta tem Deus o pobre que divide com outro o seu único pedaço de pão, do que o rico que apenas dá do que lhe sobra, disse-o Jesus, a propósito do óbolo da viúva.” [21]

(Passagem do óbolo da viúva: Marcos 12:41-44 e Lucas 21:01-04. Algumas traduções desses trechos bíblicos mantiveram as denominações originais da moeda da época, quais sejam, lepton e quadrante. Óbolo é uma unidade de massa padronizada na Grécia antiga, correspondente a 0,6 g. Um lepton, menor unidade monetária da época, tinha massa de 1,55 g; um quadrante, correspondente a dois lepta e a um quarto de um asse, tinham massa de 3 g; um asse ou as, massa de 10 g. Fonte: http://www.capuchinhos.org/siteantigo/porciuncula/biblia/suplementos.htm. A título de comparação com moedas atuais: a moeda de 1 real tem massa de 7 g, e a moeda de 1 centavo, massa de 2,43 g)

O que podemos fazer para melhor entender o bem e o mal e nos aperfeiçoarmos?“Não somos perfeitos, eis o que é positivo; sabemos que nossas imperfeições são o único obstáculo à nossa felicidade futura; portanto, estudemo-nos, a fim de nos aperfeiçoarmos. No ponto em que estamos a inteligência está bastante desenvolvida para permitir ao homem julgar sensatamente o bem e o mal, e é também deste ponto que a sua responsabilidade é mais seriamente empenhada, já que não mais se pode dizer o que dizia Jesus: ‘Perdoai-lhes, Senhor, porque não sabem o que fazem.’” [22]


Eu fazer o bem, também faz bem para mim?“A caridade jamais se acaba.
O bem que praticares, em algum lugar, é teu advogado em toda parte.
Através do amor que nos eleva, o mundo se aprimora.
Ama, pois, em Cristo, e alcançarás a glória eterna.” [23]

“Não será lícito, porém, esquecer que o bem constante gera o bem constante e, que, mantida a nossa movimentação infatigável no bem, todo o mal por nós amontoado se atenua, gradativamente, desaparecendo ao impacto das vibrações de auxílio, nascidas, a nosso favor, em todos aqueles aos quais dirijamos a mensagem de entendimento e amor puro, sem necessidade expressa de recorrermos ao concurso da enfermidade para eliminar os resquícios de treva que, eventualmente, se nos incorporem, ainda, ao fundo mental.
Amparo aos outros cria amparo a nós próprios, motivo por que os princípios de Jesus, desterrando de nós animalidade e orgulho, vaidade e cobiça, crueldade e avareza, e exortando-nos à simplicidade e à humildade, à fraternidade sem limites e ao perdão incondicional, estabelecem, quando observados, a imunologia perfeita em nossa vida interior, fortalecendo-nos o poder da mente na autodefensiva contra todos os elementos destruidores e degradantes que nos cercam e articulando-nos as possibilidades imprescindíveis à evolução para Deus.” [24]


Quando o bem prevalecerá na Terra?“O exame daqueles que já viveram, provando que a soma da felicidade futura está na razão do progresso moral efetuado e do bem que se praticou na Terra; que a soma de desditas está na razão dos vícios e más ações, imprime em quantos estão bem convencidos dessa verdade uma tendência, assaz natural, para fazer o bem e evitar o mal.
Quando a maioria dos homens estiver convencida dessa ideia, quando ela professar esses princípios e praticar o bem, este, impreterivelmente, triunfará do mal aqui na Terra; procurarão os homens não mais se molestarem uns aos outros, regularão suas instituições sociais — tendo em vista o bem de todos e não o proveito de alguns; em uma palavra, compreenderão que a lei da caridade ensinada pelo Cristo é a fonte da felicidade, mesmo neste mundo, e assim basearão as leis civis sobre as leis da caridade.” [25]
Referências:

[1] KARDEC, Allan. “A Gênese”. 34ª ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1991. Capítulo III (“O Bem e o Mal”), item 8.
[2] KARDEC, Allan. “O Que É o Espiritismo”. 53ª ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 2005. Capítulo III (“Solução de alguns problemas pela Doutrina Espírita”), item 129.
[3] KARDEC, Allan. “A Gênese”. 34ª ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1991. Capítulo III (“O Bem e o Mal”), item 1.
[4] KARDEC, Allan. “O Que É o Espiritismo”. 53ª ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 2005. Capítulo III (“Solução de alguns problemas pela Doutrina Espírita”), itens 131 e 132.
[5] KARDEC, Allan. “A Gênese”. 34ª ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1991. Capítulo III (“O Bem e o Mal”), item 9.
[6] KARDEC, Allan. “O Livro dos Espíritos”. 66ª ed. Rio de Janeiro: RJ, FEB: 1987. Questão 634.
[7] XAVIER, Francisco Cândido. “Evolução em Dois Mundos”. Pelo Espírito André Luiz. 14ª ed. Rio de Janeiro, RJ: 1995. Capítulo XVIII, “Evolução e destino”.
[8] KARDEC, Allan. “O Que É o Espiritismo”. 53ª ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 2005. Capítulo III (“Solução de alguns problemas pela Doutrina Espírita”), item 130.
[9] KARDEC, Allan. “O Céu e o Inferno”. 37ª ed. Rio de Janeiro, RJ: 1991. 1ª Parte, Capítulo IX (“Os Demônios”), itens 3 e 4.
[10] KARDEC, Allan. “O Livro dos Espíritos”. 66ª ed. Rio de Janeiro: RJ, FEB: 1987. Questão 632.
[11] Ibidem, Questão 633.
[12] Ibidem, Questão 636.
[13] Ibidem, Questão 637.
[14] KARDEC, Allan. “A Gênese”. 34ª ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1991. Capítulo III (“O Bem e o Mal”), item 3.
[15] KARDEC, Allan. “O Livro dos Espíritos”. 66ª ed. Rio de Janeiro: RJ, FEB: 1987. Questão 639.
[16] Ibidem, Questões 640 e 641.
[17] Ibidem, Questão 642.
[18] Ibidem, Questão 657.
[19] PASTORINO, Carlos Torres. “Sabedoria do Evangelho”. Rio de Janeiro, RJ: Sabedoria, 1964. Volume 2, capítulo “Amor ao Próximo”.
[20] KARDEC, Allan. “A Gênese”. 34ª ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1991. Capítulo III (“O Bem e o Mal”), item 7.
[21] KARDEC, Allan. “O Livro dos Espíritos”. 66ª ed. Rio de Janeiro: RJ, FEB: 1987. Questão 646.
[22] KARDEC, Allan. “Revista Espírita de janeiro de 1864”. São Paulo, SP: IDE, 1993. Questões e Problemas – Progresso nas Primeiras Encarnações.
[23] XAVIER, Francisco Cândido. “Vinha de Luz”. Pelo Espírito Emmanuel. 14ª ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1996. Capítulo 168.
[24] XAVIER, Francisco Cândido. “Evolução em Dois Mundos”. Pelo Espírito André Luiz. 14ª ed. Rio de Janeiro, RJ: 1995. Capítulo XX, “Invasão microbiana”.
[25] KARDEC, Allan. “O Que É o Espiritismo”. 53ª ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 2005. Capítulo II (“Noções elementares de Espiritismo”), item 100 (“Consequências do Espiritismo”).

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